O governo do Rei Salomão

Autor:Arnaldo Ourique
Cargo do Autor:Licenciado, Pós-Graduado e Mestre em Direito, Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa
Páginas:33-34
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O GOVERNO DO REI SALOMÃO (
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)
Perante o rei a mãe de braço cruzado sobre o ventre, de punho cerrado, uma pose de
quem sente o vento frio nos ombros como um mastro sob a agitação polar. De olhar
ruço perscruta tudo e nada ao mesmo tempo, enquanto o coração pula de raiva e certeza.
A outra mãe não é uma pessoa: é um pano ao vento num olhar de lavrada inquietude nos
olhos esbugalhados do filho. O oficial segura uma criança de nem um mês; segura-a
como um coelho acabado de apanhar. A sala está apinhada de gente.
– Majestade – dirige-se o oficial ao rei – este é o caso: uma criança e duas mães; ambas
dizem que o filho é seu.
O rei olhou para a mãe e perguntou: – esta criança é sua?
– Sim, majestade. Eu sou a verdadeira mãe.
– E, disse o rei à outra mãe – esta criança é sua?
– Sim, majestade, é o meu pequenino.
O rei, majestoso, tinha já percebido de quem era afinal a criança. Mas tinha que o
demonstrar ao povo ali presente e não bastaria a sua palavra, queria que fosse a verdade
a dizê-lo sem reservas. Sabia que um governo que aparenta é porque afinal não é, e que
o é sem parecer possivelmente não o será. Sabia que uma minoria saberia ver a sua
justiça; mas que a maioria só o sabe quando se lhes envia as coisas pelo espírito adentro.
Sabia que estava certo, mas que a certeza ou é de todos ou não é de ninguém. Sabia que
cada homem deixa a sua marca por muito errada que esteja e o governo, o rei, ainda
assim é maior a sua responsabilidade. Levantou-se, dirigiu-se à criança que berrava com
a força dos pulmões. Passou-lhe a mão pela face, a criança agarrou-lhe o dedo e levou-o
à boca. A mãe rosnava de raiva e batia com o pé no chão; a mãe debatia-se com a
agonia de ver aquele anjinho assim tão abandonado.
– Tenho que ser justo – disse o rei. Se as duas são mães, temos que ter duas crianças
porque aqui só vejo uma.
O povo afunilava-se de curiosidade.
– Sendo assim – continuou o rei – apenas posso decidir em favor das duas que rogam
serem a mãe deste verdelho. Pois bem, mandarei cortar a criança ao meio e entregar a
cada uma metade.
(
15
) Publicado em 20-06-2010.

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